A impressão que se tem é de que os governos não querem cidadãos com pensamento próprio, consciência crítica e reflexiva sobre os problemas, pois o que a escola, muitas vezes ensina é “o que pensar”, como uma forma de controle do aluno e do futuro cidadão. A escola deveria, acima de tudo, ensinar “como pensar” e não “o que pensar”. Em face dessa realidade, ela não poderia ser meramente uma instituição transmissora de informação, e sim um lugar de produção de conhecimento, dando significado à informação. Caberia a ela dar ferramentas aos seus alunos para que selecionem informações, tornando-os sujeitos do próprio conhecimento.

Esse problema é estrutural e cultural, pois, no fundo, o professor é considerado um mero executor de currículo, não lhe sendo dada a autonomia de criar e inovar na prática educativa e na geração de novos conhecimentos. Para tanto, ele necessita do apoio da própria instituição e da comunidade. Aqui, aparece o conceito e a utilidade da criatividade, que pode ser entendida como a capacidade de produzir ideias novas e valiosas, ou como mudar a maneira como as coisas são feitas, ou uma técnica para resolver problemas. Além disso, significa uma nova forma de pensar, a coragem para assumir riscos, experimentar e criar, como alternativa para sair da rotina do cotidiano. Inovar, por sua vez, é colocar as ideias em prática.

A criatividade e a motivação

A criatividade tem muito a ver com quem está de bem com a vida. Aquele que esteja sempre de mal consigo e com os outros, testa franzida, dedo em riste, arrogante, prepotente, dono da verdade, destrói qualquer possibilidade de criação em sala de aula e fora dela. O professor também não deveria projetar nos alunos seus próprios preconceitos, temores e frustrações, pois, dessa forma, estará criando barreiras e obstáculos para o ambiente criativo favorável. Talvez o maior bloqueador da criatividade seja a indiferença. Aquela necessita de um estimulo que libere o aluno de sua inibição para expressar, comunicar, colocar e resolver problemas. A crítica, como censura, também bloqueia o juízo e a percepção do novo. Porém, vários outros fatores bloqueiam a criatividade: as normas, o controle, as barreiras emocionais, o medo do ridículo, a tradição, a autoridade e o medo de errar. Todos devem ser evitados.

Não podemos deixar de citar que a formação profissional do professor, seu ambiente de trabalho, o baixo prestígio da profissão, o isolamento e a falta de estrutura para o ensino também contribuem, e muito, para esse bloqueio. Por outro lado, a busca incessante pelo êxito colabora para a competição e a busca da perfeição, o que faz com que o aluno não se lance em uma atividade em que não seja recompensado.

 A criatividade não pode ser ensinada, mas estimulada e treinada.

O processo criativo deve ser incentivado, pois é uma ferramenta de suma importância na relação professor-aluno e para o processo de ensino-aprendizagem. A criatividade não pode ser ensinada, mas estimulada e treinada. Pode-se dizer que o ser humano é um ser indagador, curioso e explorador, e que não pode manter suas inquietações do espírito sem respostas. Quando se fala em criatividade, o contraditório se faz presente. A palavra sugere coisas novas, inéditas, mas que muitas vezes as pessoas já sabem, porém não vivenciaram no seu cotidiano. Entretanto, quando incorporam apenas conhecimentos de forma racional, elas acabam bloqueando outras formas de pensar e de solucionar problemas. Talvez o comodismo, conformismo ou rotina e até desinteresse em buscar o novo, façam com que essa habilidade não seja desenvolvida.

 

É importante que se tenha em mente que, no fundo, a escola ensina a “repetir” coisas. Fatos, datas e acontecimentos são ensinados de forma repetitiva. É claro que tais informações são importantes para a vida, pois não adianta ser uma pessoa muito criativa e achar que precisa inventar a roda ou o telefone celular, por exemplo. Vale lembrar que as tarefas criativas são mais motivadoras do que as repetitivas.

 

Para o professor ser criativo é fundamental conhecer bem o tema a ser trabalhado e estar preparado para aceitar ideias novas e estimular os alunos que tenham ideias diferentes. Contudo, mais do que ser um especialista, ele precisa estar aberto a ousar e experimentar novos conceitos, desafiar o modo como as coisas são feitas, isto é, sair da mediocridade reprodutiva e passar para um real processo criativo com seus alunos.

O professor criativo

O professor criativo é aquele que se comunica melhor, ensina melhor, instiga seus alunos a pensar e a desenvolver sua criatividade. Ele substitui a ênfase no ensino para enfatizar a aprendizagem criativa. O docente deveria ser um profissional reflexivo e pesquisador comprometido na tarefa de não apenas “ensinar a aprender”, mas de “ensinar a pensar”, o que creio ser um dos grandes desafios da docência de hoje.

 

Naturalmente que para isso o professor necessita de uma formação sólida e de utilizar-se dos recursos disponíveis para ensinar. Ele assume várias funções na sala de aula, entre as quais criar e organizar um ambiente para aprendizagem e dar condições ao aluno para aprender, ao mesmo tempo em que avalia o resultado do processo de aprendizagem. E para que isso ocorra, ele tem que estar sempre em mudança contínua. Segundo Pedro Demo, na obra “Fundamentos sem fundo”, (2008): “Somos o mesmo, não porque permanecemos o mesmo, mas porque mudamos. Só o que muda permanece”. Então para criar, precisamos mudar.

 A verdadeira missão educativa

Quando despertamos o processo criativo na criança estamos ajudando-a a compreender a si mesma, sua mente, seu coração e o modo de agir na sociedade com os outros. Só assim pode haver liberdade e integração. Educar é cultivar relações corretas, não só entre indivíduos, mas também entre o indivíduo e a sociedade. O verdadeiro educador não é aquele para quem o ensino é mera profissão, mas sim aquele que tem vocação de mudar, de criar, de experimentar e de inovar.

O aprender precisa ter um novo significado, criar novas realidades e gerar um sentido pedagógico. E esse sentido sempre estará ligado ao processo criativo por novas experiências de aprendizagem que são provocadas, facilitadas, criadas ou recriadas por outras já vividas. Quanto mais o professor colaborar para que os alunos tenham suas próprias ideias, mais irá valorizar suas novas ideias e maior será a possibilidade da realização do processo criativo. Vale lembrar que a educação deveria promover uma forma de integração dos alunos, isto é, a mente, o coração e o agir no cotidiano, e o educador ser o responsável por ajudá-los a ampliarem as suas perspectivas de ver o mundo.

Concluindo, o professor que oferece condições para que seus alunos sejam criativos, não apenas para aprenderem e refletirem sobre coisas do mundo, mas também para encontrarem um significado para suas vidas, está realizando a verdadeira missão educativa.

 

 

Artigo publicado na “Revista Aprendizagem” n. 16/2010